sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Três


Existem sonhos que são pura poesia, mas existem pesadelos. Ela ainda não tinha certeza sobre em qual estado onírico estivera. Mas guardava a sensação de que seu entendimento simbólico não seria o bastante para interpretá-lo. Buscava ajuda. Dialogava mundo afora, sem as barreiras do tempo. No entanto, guardava uma impressão antipoética na garganta. Um sentimento nítido de ter se deixado invadir. Não sabia se a invasão havia sido feita pela natural intensidade da poesia ou pela antipoesia da vida real em sua face mais dura. Ou as duas. Em qualquer hipótese, uma certeza, tudo era por sua própria culpa ou mérito, a depender do referencial! O sonho havia tido um ardente apelo estético e emocional, talvez por isso lhe restara tantas dúvidas. Metáforas. A vida era metáfora da vida, os sonhos também, tudo se repetia. Qual era a matriz da sua história? A primeira experiência que a mantivera no mesmo círculo por tanto tempo? Três mulheres, ela já as tinha visto, vestido suas especificidades, vivendo de maneiras peculiares a mesma trajetória. Uma em três...como se fossem vidas diferentes, sem serem. Talvez uma versão herege e feminina da divindade ocidental de agora. Todas estéticas, arquetípicas, radicais. Mas sempre repetitivas. Compunham sua identidade mosaica Atena, Afrodite e Psique. Deusas de luto habitavam sua alma. Atena guerreira, oriunda da cabeça de Zeus, civilizada, sagaz, altiva, intelectual. Afrodite... a deusa do amor, a sensualidade a flor da pele, dona do sexo, da sedução e apreciadora das levianidades do Olimpo. Psique... a mortal que, ao encontrar o deus do amor (penso que talvez o amor-próprio)... tornara-se a deusa da alma. Havia um quê de fatalidade nas imagens apresentadas pelo inconsciente. Qual delas seria sua personalidade primária? A verdade é que elas não se davam entre si, mas haviam nascido tão juntas! Reconhecê-las em seus sonhos, mesmo machucadas e tristes, contraditórias, representava o estabelecimento e o desabrochar da totalidade originária potencial. Uma conclusão, portanto, poética e antipoética, afinal... composta por três deusas, nascia uma só mulher: plena, inteira, imortal!

Ilustração de Joaquim cartaxo
Texto inspirado em diálogos com a obra de Jung "A Psicologia do Inconsciente"

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