segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Alice sem país





Enquanto o potencial de uma metade se expande,
Se faz ação, objeto... vida pulsante,
A outra metade implode,
Torna-se desespero, dor e neurose.
Dos diálogos ausentes
Resultam almas transbordantes de nada...
E os olhares de uns reprovam 
As performances e os rituais de outras...
Impondo-lhes o não lugar.
Corpo limiar em encruzilhada
- duas estradas - a implosão ou a luta!
Fala sem escuta, Alice sem país...
Ele é todo mestre, ela com sorte,
Aprendiz!

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Vamos Juntas!!!! Empodere-se!


Faz um período que não encontro tempo para escrever, mas hoje é dia. Há dois meses deixei de ser policial civil, atendendo violência doméstica na Delegacia da Mulher de Cianorte para mudar de carreira, mas não de tema. Hoje estou produzindo o Workshop Empodere-se de Defesa Pessoal para Mulheres. Depois de dois anos de eventos teste, fazendo pequenas oficinas ensinando técnicas de defesa pessoal, depois de passar por um mestrado em Políticas públicas, no qual analisei o discurso de mulheres vítimas de violência, e após atender mais de 2 mil casos que se enquadraram na Lei Maria da Penha, construímos, a muitas mãos, o formato do workshop que produzimos hoje.

No entanto, desde que começamos a colocar em prática tudo isso, neste formato, há dois meses, tenho vivido muitas emoções diferentes. Quando fizemos pela primeira vez, na cidade de Maricá no Rio de Janeiro, nos deparamos com mulheres em situação de violência, que nunca haviam se aberto com ninguém, e tivemos o privilégio de ouvir suas histórias. Uma delas foi cega até os 18 anos, e depois de fazer uma cirurgia recuperou a visão de um olho e ali sua vida começou a melhorar. Mas logo se casou com um homem de alto poder aquisitivo, que não permitia que ela trabalhasse ou estudasse, saiu dessa relação, começou a trabalhar como empregada doméstica, estudar, criou sua filha sozinha. Depois dos 40, já com a vida estabilizada, conheceu um outro homem, se casou de novo, e novamente, entrou numa relação abusiva, engravidou, e ainda grávida, ele a agrediu fisicamente, e abandonou a relação e nunca assumiu a criança.

Em Maringá, na primeira edição do workshop, também ouvimos muitas histórias, trajetórias de mulheres que foram ameaçadas, que tiveram que ir escondidas a polícia, fizeram medidas protetivas. Mulheres que estavam passando por situações de violência naquele momento e que mal conseguiam falar na roda de conversa, porque nunca tinham aberto seu coração em lugar algum. Meninas pobres e ricas que sofreram abuso sexual na infância pelo vizinho ou pelo pai da amiguinha numa viagem de luxo.

Ouvimos histórias de mulheres de 14 anos que acompanham a história de violência sofrida por suas mães. Mulheres de 50 anos que passaram a vida sendo submissas aos maridos e tiveram suas identidades usurpadas e hoje lutam para se reestruturarem emocionalmente. Mulheres de 30 anos que passaram pela universidade, tiveram excelentes acessos, incentivo familiar, mas que ainda assim são levadas a  assumirem tarefas domésticas quase sozinhas, e quando engordam alguns quilos seus companheiros insinuam que precisam se cuidar mais.

Não tenho nenhuma amiga que não tenha sido discriminada por ser mulher. Todas, sem exceção, já viveram alguma situação de violência, tiveram seus corpos invadidos, sua mente e sua alma. Estão em relações abusivas e não conseguem sair, seja por dependência emocional, financeira, ou por falta de recurso interno. As que conseguiram sair carregam dores, feridas, marcas profundas. Eu também as carrego. 

Hoje, estávamos num café apresentando o projeto para uma menina que desejava conhecer mais o Empodere-se. E enquanto discutíamos cada ponto, fomos surpreendidas por uma menina na mesa ao lado que nos ouvindo começou a chorar. E olhei para ela e convidei-a a sentar conosco. Ela veio, e com muita dificuldade, nos contou sua história. Disse que há um ano e meio atrás passou por uma relação com um homem muito rico, que a espancava, a deixava em carcere privado, a dopava e destruiu todas as coisas dela para que ela não conseguisse ir embora.

O tempo todo, ela se culpava pelo que havia acontecido. Dizia que não sabia como permitiu que as coisas tivessem chegado a esse ponto. Dizia que era burra, que se sentia feia. E ela é linda, perfeita, inteligente. Mas sua autoestima está quase destruída. Eu disse a ela que havia atendido mais de dois mil casos similares ao dela e que todas as mulheres com as quais conversei também se sentiam muito culpadas por terem permitido que as coisas chegassem a situação de violência. Disse que se eu, uma única policial, atendi dois mil casos, e que todas as mulheres que estiveram no nosso workshop relataram situações de violência, então, o problema não está em nós, mas sim numa sociedade que é permissiva com a opressão. E que então, precisamos trabalhar nossas culpas e lutar para construir uma sociedade diferente. Nós a abraçamos e a convidamos para participar do workshop que faremos mês que vem.

Acontece que, guardadas as devidas proporções, também me senti assim na maioria das relações que tive. E eram relações aparentemente muito maduras, com homens intelectuais, incapazes de ferir uma mosca. Mas que muitas vezes não economizaram ao transferir seus problemas e traumas para mim, me culpando de suas próprias dificuldades. Um deles uma vez, com sérias dificuldades para ter relações sexuais, disse que eu era muito travada na cama (o que nunca fui, e ele sabia bem há mais de uma década) transferindo assim seu problema a mim. Trocou meu nome pelo da ex-esposa, e dizia que tinha muita dificuldade em lidar comigo, pois eu era muito parecida com a ex (o que hoje considero um tremendo elogio pensando na grande mulher que ela é). Este mesmo homem, em um momento de grande fragilidade da minha autoestima, acusou que as minhas escolhas de vida tinham sido equivocadas, no que tange eu ter escolhido a política como algo central em minha vida, pois eu deveria ter feito uma carreira na mesma área que a dele, pois assim eu estaria muito melhor, isso é, colocando-se como modelo para mim e desqualificando minhas escolhas. 

Enfim, isso somente em uma relação, tive outras ainda piores, e fatos ainda mais graves nesta mesma, que foi a última e a mais longa. Mas a verdade é que estamos todas vulneráveis a muita violência. Violências visíveis e invisíveis. Mas que vão nos destruindo por dentro e por fora. Minando nossa autoestima e nossas relações com o mundo. Quantas mulheres geniais devem ter se perdido devido a esta realidade. Quantas coisas muito piores devem ter enfrentado as mulheres de gerações passadas. Quanta riqueza o mundo perdeu e perde por nos oprimir, por tentar calar as nossas vozes, minar nossas elaborações. Nossas identidades tem sido implodidas e nossos potenciais tem sido transformados em neuroses devido a violência. 

Na última semana uma meia duzia de pessoas em diversas ocasiões diferentes me perguntaram porque saí da polícia com um tom de julgamento, como se isso fosse uma loucura. E sempre respondo a verdade, saí para produzir o Workshop Empodere-se - Defesa Pessoal Para Mulheres, pois não sentia que na polícia civil eu realmente poderia ajudar, mudar a história. E aí, estas mesmas pessoas me disseram "tá, mas no que você está trabalhando, assim, formalmente?", respondo, "é nisso mesmo, dá bastante trabalho" e fico bem séria, olhando para a pessoal, a maioria percebe a gafe. Mas temos enfrentado diversos tipos de subestimação, mulheres jovens produzindo algo diferente, que não entra muito bem na cabeça das pessoas. Sofremos assédio de homens que nos atendem, infantilização, discriminação mesmo, ouvimos piadas machistas... mas nada disso nos faz parar.

Continuaremos, e faremos nosso trabalho para o maior número de mulheres que conseguirmos e por todo o Brasil. Porque a gente propõe um workshop que institucionaliza e coletiviza um recurso que adquirimos sozinhas na nossa trajetória e há sempre mais estrada para percorrer. Hoje a menina que encontrei no café, a qual eu pude abraçar e ouvir, me faz ter certeza do que quero na vida... quero a mesma coisa que eu queria no início da minha adolescência, sem uma vírgula a menos, quero mudar o mundo, e vou... mas não sozinha. Vamos juntas!!!








terça-feira, 27 de junho de 2017

Microcosmo


Tinha a inadequação expressa em uma face de traços adequados, severamente adequados. Uma demonstração sutil de desconforto visceral com o mundo, um desencontro de si quase conformado. Um olhar distante, embora perto de um infinito qualquer. Ele guardava pequenos detalhes de suas peculiaridades como quem guarda um tesouro. No lugar da  ainda tímida inspiração da arte, a matemática da vida, escondia. De uma espiritualidade concreta, traduzida... partículas quânticas, a física. Um mosaico identitário, fora do padrão, cujas idiossincrasias deixou o microcosmo daqui... numa leve e doce expansão.

domingo, 18 de junho de 2017

Talvez... que bom... que pena!


Já não dói mais como doía... e eu já passei por isso antes!! Não dói mais como doía e há um lado muito triste nisso. Não dói porque a memória está reconfigurando, apagando as sensações... deixando as lembranças vazias de suas cores, de suas esquinas. Deletando os cheiros, as dimensões exatas dos toques... os frios na barriga, as emoções verdadeiras... a memória está deletando os deleites, as risadas, a dimensão exata do prazer da companhia, a magnitude do que era poder te tocar. Mesmo com registros, fotografias, músicas, poemas... por mais que eu olhe para eles, já não me darão a exatidão do que vivemos. E isso vai trazendo um certo alívio, permitindo que eu siga em frente plenamente, que não sofra todos os dias, que não chore toda semana, que não dê um jeito de te encontrar todo mês... mas com o alívio que chega, também se vão os sonhos, a intensidade da alegria, as motivações que me moviam na sua direção. A minha memória se apaga para que eu possa ser eu, inteira, não carregue uma ferida aberta enquanto corro o mundo por aí... mas é triste, porque esta memória protetora, quando apaga suas cores aqui dentro, é como se apagasse também uma parte de mim. Aos poucos o amor está dando lugar a melancolia. Sei como funciona, já aconteceu antes... me lembro de quando a gente foi lá insistir em reavivar tudo de novo... como eu fui relembrando cada sensação de estar com você, as conversas, os toques, os encontros, as danças, as esperanças, os sonhos... me lembro de comentar... de me indignar como eu podia ter esquecido tudo, e que por mais que me lembrasse dos fatos, não lembrava das cores... as cores tiveram que ser refeitas... e foram!!! Agora eu estou aqui, percebendo que a cada dia me lembro menos, a exatidão das coisas escorre por entre minhas mãos...a cada dia tudo vai ficando distante... talvez tão distante que daqui a pouco você seja um bom amigo do rol dos conhecidos de longa data, que de vez em quando, uma vez por ano quem sabe... a gente marca um café, conta as novidades, diz que se apaixonou de novo por outra pessoa, e até comemora que o outro esteja feliz, fica feliz pelo outro sentindo assim só uma pontinha de desconforto... segue em frente meio sem saber o que houve. Talvez... que bom... que pena!

sábado, 20 de maio de 2017

Histórias sem fim sobre alguém, escondidas na ilha da inconsciência... (parte I - A adolescência e a pós-adolescência)


O obstáculo em que se esbarrava inicialmente era a pobreza no campo das abstrações. A percepção literal da realidade não diferenciava em muito o ser transcendental teoricamente humano, de seres carnais fora desta categoria. Este foi o início... um tanto rudimentar, muito desastrado, mas que demonstrava um certo talento, cujo substrato eram apenas músicas simplistas e pouco mais do que notas de rodapé de um clássico ou outro do pensamento da humanidade.

Um ser falante, feito de desejo, contido num narcisismo óbvio e precário se desenvolvia de maneira descoordenada. Nenhum tutor estava de verdade envolvido no processo. Tinham lá alguns similares a "Mestres dos Magos", que ofereciam conselhos enigmáticos, mais interessados em viverem suas próprias pseudo adolescências do que no exercício de real responsabilidade... muito longe de serem capazes de ajeitar as coisas ou de exercerem qualquer autoridade.

Mas ainda assim os valores iam sendo construídos, firmados a cada dia no valor da diferença. Situava-se através de uma rede de oposições. Encontros frustrados com intuito de metaforizar desejos mais complexos e completos acabavam se parecendo com um grande bazar de miudezas no qual se gera muito interesse momentâneo, mas que não se podia aproveitar muita coisa no sem graça cotidiano da vida real. 

Porém, como afirmou um filósofo nada qualquer, "os momentos essenciais da vida são marcados pelo transpor de uma identificação a outra"... identificações que eram contraditórias entre si, levando o indivíduo a apaixonar-se pelo problema... desejos que se opunham as demandas geravam uma moldura hedonista para a vida, firmados em seduções transferenciais.

Mas claramente, não se podia forçar a ingestão do saber. Era nítida a vacuidade do sujeito, seu vazio de próprios pensamentos. Significantes anacrônicos exerciam dominação, mas que permaneciam camuflados pelo gosto de falar indefinidamente. Não era possível enquadrar, nem medir realmente aquele ser nascente para a vida adulta... muito menos através de suas próprias réguas frágeis.

A narrativa verdadeira se construía sem cenário, sem cores, num campo apenas subjetivo, com significações abstratas. Era possível apenas entender a si mesmo através do outro, só o outro era real, portanto, só a partir do outro era possível enxergar-se. Seu comportamento era permanentemente exercido através de pressupostos, que correspondiam plenamente a sua própria reputação... fosse lisonjeira ou terrificante. Mas quase todo seu recurso era emprestado e artificial, portanto, mesmo guardando alguma reputação, tinha uma fragilidade evidente, mas que ninguém viu.

Ninguém viu porque, como afirmou o filho amado da psicanálise, "reconhecer o outro como humano é muito diferente de reconhecê-lo como sexuado". É certo que mesmo nesta seara, carregava alguma sofisticação... mas que não passavam de desastrosas experiências de fazer com que o mal-estar se transformasse em satisfação, que agiam no intuito de apenas calar evocações de humanidade que tentavam ser trazidas a tona.

Então, um tom alegre que se desmentia diante de qualquer brisa fria, revelava somente verdades não agradáveis que não prometiam salvação. O refúgio se dava na obscuridade, guardando nas sombras posições fundamentais de existência, gerando dependências essenciais. E assim se arrematava um período, selava-se uma fundamentação.


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Vida vegetativa


As mágoas eram parte da vida real... cotidianos impositivos os levavam a percepções de rejeição, de cansaço, de esgotamento. Que iam se tornando aversões quanto a própria existência. Incrustravam-se então, nos cantos de cada um  deles, os nódulos emocionais nocivos, que bloqueavam a espontaneidade para a vivência leve, rejeitando assim qualquer possibilidade de cumprimento das teses fundamentais do esoterismo.
Era evidente devido a inquieta hostilidade expressa que tudo tinha uma causa que se encontrava no passado. Levada em frente que se acumulava... trazendo novas formas, retroalimentadas. Eram possíveis as justificações destes sentimentos, tanto quanto se quisesse. 

Mas só poderiam ser definidos correlativamente, mágoa e indivíduo, ambos os agentes possuíam características similares evidentes a um olhar mais atento. Encaixes de lacunas e colunas tristes davam formas as culpas que se instalavam, oferecendo falso substrato a uma vida vazia.

Seres humanos que não se achavam universalmente realizados, rotinas uniformes que indicavam vidas vegetativas, que não resistiriam ao ser inquiridas sobre seus sensos e significados. Indivíduos fracionados, cujos conhecimentos atemporais contidos estavam esquecidos, abandonados.

Quais as saídas? Total impossibilidade de tornarem-se subitamente ativos, metades dissemelhantes, gente infiel aos seus delírios, mergulhada em fundamentações lógicas e indicações de evidências radicalmente inúteis de fatos sincrônicos justapostos. Não haveria mediações através das quais se pudessem instalar processos de aproximação. Observações doloridas... nada mais a fazer, senão a poesia.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Diálogos com Beauvoir


Situação mais ou menos encerrada, realidade misteriosa, ameaçada. Coisas subjetivas que hoje não existem mais, talvez nunca tenham existido, talvez fossem apenas fugas inautênticas.

Com uma evidência total, apresentavam-se sentidos singulares de características imputadas como limitações. Não eram singularidades, eram relativizações do outro, estabelecendo a si mesmo como referencial.

Questões absurdas implicadas como princípio, descobrindo-se na própria consciência as razões das aproximações estabelecidas. E por mais longe que se remontasse na história, estariam presentes apenas agitações simbólicas, muito distante dos protagonismos reais.

Nem as promiscuidades espaciais, nem a elaboração do mundo com o olhar próprio estavam no campo das permissões e das licitudes. Sempre uma existência justificada, revestida de um prestígio infame. 

De um lado, uma liberdade que deveria inventar seus fins sem auxílios, do outro, a tentação de fugir de sua liberdade e de constituir-se confortavelmente em coisa. Cortadas de sua transcendência, frustradas de todo valor...

Não havia partilha igual do mundo, por mais que se contestasse todas as justificações. Os donos exibiam sua satisfação alicerçada no absoluto e em sua pretensa condição de eternidade, com todas as peculiaridades a serviço de seus desígnios.