sexta-feira, 17 de maio de 2019

Desconfiguração


Os seus sentidos foram capazes de captar a desconfiguração do corpo alheio. Um querer incompatível com o poder. Um poder exercido nos marcos da suavidade, não exatamente determinado pelo exercício da vontade. Uma energia sutilmente amarga denunciava que algo estava fora do lugar. Mas, pequenos detalhes de deleite e incômodo pulsavam-lhe também a percepção. E era bom! Bom por agora, bom por hora... bom para ela. Aqueles sentimentos que cumpriam com maestria o seu papel. Qual papel? O de impulsionar sua criatividade, de construir outras formas de linguagem, de rememorar a necessidade de uma vida em movimento, um convite a não obviedade da história. Era bom lidar com uma pulsão tão peculiar, tão diferente. Com um tom de comicidade e ao mesmo tempo eloquente. No entanto, nada era verdade, assim como também não era mentira. Apenas era, foi, esteve, talvez um dia volte. Talvez um grande azar, talvez nada,  talvez uma sorte. Talvez a energia amarga e sutil fosse um anúncio de morte.

terça-feira, 19 de março de 2019

Angústias Milenares


Passagens milenares se colocam no diálogo do agora. Quantos indivíduos trocaram energias similares em outros tempos e contextos, embevecidos das mesmas angústias? O rigor da articulação das palavras nos é próprio e peculiar, mas o conteúdo possivelmente não. Sinto nas expressões de Beauvoir a mesma dor ao questionar os privilégios de Sartre, e através dele, questionar a metade privilegiada do mundo todo, entregando a nós, de seu infinito interno, um tesouro sem precedentes. Talvez também nos diários de Zelda contivesse tal energia no confronto a F. Scott Fritzgerald que além de silenciar, roubava-lhe as palavras... Ah quantas palavras nos são constantemente roubadas, eles tiram daqui e levam para lá, roubam de lá e trazem pra cá... Confronto misturado, movimento por dentro do próprio movimento. E no Conto de Aia, e nas histórias de Virgínia Woolf, e em cada postagem angustiada querendo mudar o mundo de cada uma destas mulheres que em algum dia e em algum lugar perceberam que o mundo não é bom para nós. Na verdade mais que isso, perceberam e puderam dar nomes aos seus monstros, algozes, angústias. Poder de representações, que coisa poderosa são as palavras, quando são escutadas, é claro! O que, em nosso caso, é raro! Mas a palavra essencial é também silêncio, ou talvez totalmente o silêncio, presença serena do nada criativo. Confesso que as vezes gostaria de gozar deste lugar... me sinto cansada de tanto falar. Exausta é a palavra. Gostaria que meu silêncio fosse escutado como o silêncio deles o é. Mas se eu não falar, gritar, confrontar eu não existo. Minha existência precisa ser constantemente provada, nunca se deixar determinar, porque é o tempo todo determinada, determinada a retraimento e ausência de mim mesma, a ser preenchida por eles, com suas pretensões de onipotência... existência que nasceu determinada por aquilo que não sou. Empenhos de perguntar e desempenhos de responder.... jogo infinito de linguagem se transformou em nossa única saída, das profundezas dos pressupostos, uma cadência regular, uma precarização relacional para relacionar. Nas constelações de junturas dinâmicas... eu sustento o meu ser, mas junto a mim se encontra o meu querer transformar o mundo contestado por meu amor por você!

Ilustração de Joaquim Cartaxo

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Presença


Havia mil questões que talvez se pudesse indagar. 
Problemas e especulações, 
Temas restritos tomados por objetos de investigações. 
Emoções outrora pormenorizadas, 
Davam lugar a atitudes menos comprometedoras. 
Observações pertinentes criavam um cenário de recepções de afabilidade, 
Revelando-os como partes perfeitamente contínuas. 
Em estruturas sublimes, como também ridículas. 
Alguns pontos do mundo dos sentidos eram diligentemente procurados... 
Outros ainda resistentes a explicação. 
O alcance da memória, apesar dos incômodos, traduzia satisfação. 
A metáfora expressava agora a literalidade de antes 
Ou a metáfora de antes se expandia no agora em outros temas e expressões? 
Possibilidades emanavam das novas vontades desconhecidas.
Estímulos ressignificados em um poder barroco, 
Um tanto sagrado, e um tanto mais profano. 
E o engano, inicialmente deu lugar a um desengano... 
E aos poucos foi substituído por uma satisfação despretensiosa.  
Sendo assim, o que antes estava no campo da ausência mesmo estando ao alcance, 
Tornou-se uma presença, presente, serena, perene, ainda que distante. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Ai...


Ai de mim...
Ai de mim que acreditei tanto. Cuja decepção pulsa, que me sinto ferida, invadida, machuca, exausta num pólo inverso do que eu gostaria, na intensidade intacta, mas sombreada pela dor, pela energia da morte, pela energia do não, do contrário, do pouco, do abstrato, do simplismo, da ausência. Ai de mim... cujo silêncio transbordou pelo gatilho nítido, pelo pequeno que disse do todo, pelo engodo, pelas palavras malditas e mal ditas ou não ditas. Pelo grito. Pelo meu grito exausto, outrora calado, violado pela escuta permanente ao outro, pelo vazio impresso, labiríntico, na frequência do que era ausente, ausente, ausente! Ai de mim... cujo medo existe, persiste, insiste, avança, me alcança, não se cansa, não descansa, me encolhe, não acolhe, não escolhe e escolhe... escolhe longe. Onde está a ponte? Onde está o abraço eternizado, onde está o que nunca houve, onde está? Onde estou? Ai de mim....

Ai de você...
Ai de você que nem sabe, que nem sente, que nem pode saber... que permanece num controle de coisa alguma... que é dirigente de um vazio, que conclama para o nada, que imprime a ausência da graça, que não ama, que disputa, que permanece onde está... mas onde está? Não há, não é! Ai de você que nunca viu o que é... que  nunca pôde ser, que nunca pôde estar, amar, desenhar, fazer. Que sempre viu de fora, que não soube o dia seguinte, que nunca pôde ser um verdadeiro ouvinte... Ai de você... cujo abraço não acolhe, não recolhe, não mistura, não segue em frente, não tem futuro, não sonha, não sofre... que não tem poesia, não sabe da alegria, que não vai a festa, não escuta a seresta, que faz tudo em parte, que não flui a arte... ai de você que engole a si mesmo, cada emoção, cada afeto vulgarizado pela arrogância, pelo exercício do poder. Ai de você que não sabe o perdão, a desculpa com os olhos nos olhos, que não é amigo de ninguém. Que não briga, não abriga...Ai de você...

Ai de nós...
Ai de nós... que fomos avassalados por emoções contidas, que somos condenados ao desencontro, que fomos separados pelos desencantos... que teremos as memórias esquecidas... em nossos cantos... cantos da sala, cantos do quarto, das sacadas. Cantos silenciados. Ai de nós... cujas nossas músicas nunca serão tocadas, as almas, em vida... penadas, penalizadas, encurraladas. Ai de nós que não pudemos sonhar, e não sonhando, não pudemos realizar... que os planos eram esboços reprimidos de uma vida impossível. Ai de nós, partidos, no coração, nos corpos, nas vidas... nos partidos repartidos pelas partidas. Ai de nós, ai de nós, ai de nós! Que não nos amamos e não somos amigos...
Ai de nós... não há abrigo... eu e você, o todo...Ai de nós...!

sábado, 15 de dezembro de 2018

Amantes


As comunicações tácitas incomodavam, rasgavam o peito. Ao mesmo tempo que lhe acariciava. Sabia que estava sendo observada. Talvez lida. Uma parte sua guardava a tentação de estar fora daquele olhar que tantas vezes pudera ver presencialmente, atentamente... bloquear passava por sua mente... os olhos dele agora eram manifestações quase estranhas... tanto que nem lhe pareciam reais. Não tinha notícias do lado de lá. As últimas que obtivera não a fizeram feliz, ao contrário, criaram um abismo maior dando embasamento para afastar-se ainda mais severamente. Dias de raiva, dor, rancor. Uma traição silenciosa cuja causa não sabia ao certo qual era. Acusá-lo do quê? Tentava! Queria minimizar seu senso de empatia a todo custo. Desumanizar a presença dele ainda tão intensa. Tentava! Mas tentar é o mesmo que não conseguir. Não podia. Seus pensamentos ainda estavam bagunçados, seus sonhos perturbadores num sono sempre mal dormido. Luto por alguém tão vivo? Apagá-lo de sua história depois de tanto impacto causado? Preservar a gratidão. Gostaria... ou não. Ser grata, reconhecê-lo humano seria sinônimo de um amor ainda expresso, impresso, intenso gravado na sua própria pele. Lembrava dos motivos de sua partida, legítimos, dignos, cristalinos. Mas não era só isso... sua memória também era composta de manifestações transbordantes, de prazer, de trocas inéditas. Angústia. Os olhos enchiam-se de lágrimas, mas ainda não conseguia chorar, as lágrimas não escorriam. Dores. O corpo chorava por dentro o choro que não caia pra fora. História. Sabores. Sacadas. Diálogos. Descobertas. Pertencimento. Falta. Alma. Calma, calma, calma... dizia a si mesma "tudo vai passar, estamos na pior parte". Olhar para trás. Mas não havia caminho de volta sem negar-se... não havia estrada pra frente sem deixar para trás um pedaço de sua carne, de seu espírito. Viradas de chaves incompletas, repletas de sensações febris. Calor. Frio. Os sentidos do corpo que buscavam sentidos outrora experienciados. Desamor... amor... amados... amantes... tão perto, distantes.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Três


Existem sonhos que são pura poesia, mas existem pesadelos. Ela ainda não tinha certeza sobre em qual estado onírico estivera. Mas guardava a sensação de que seu entendimento simbólico não seria o bastante para interpretá-lo. Buscava ajuda. Dialogava mundo afora, sem as barreiras do tempo. No entanto, guardava uma impressão antipoética na garganta. Um sentimento nítido de ter se deixado invadir. Não sabia se a invasão havia sido feita pela natural intensidade da poesia ou pela antipoesia da vida real em sua face mais dura. Ou as duas. Em qualquer hipótese, uma certeza, tudo era por sua própria culpa ou mérito, a depender do referencial! O sonho havia tido um ardente apelo estético e emocional, talvez por isso lhe restara tantas dúvidas. Metáforas. A vida era metáfora da vida, os sonhos também, tudo se repetia. Qual era a matriz da sua história? A primeira experiência que a mantivera no mesmo círculo por tanto tempo? Três mulheres, ela já as tinha visto, vestido suas especificidades, vivendo de maneiras peculiares a mesma trajetória. Uma em três...como se fossem vidas diferentes, sem serem. Talvez uma versão herege e feminina da divindade ocidental de agora. Todas estéticas, arquetípicas, radicais. Mas sempre repetitivas. Compunham sua identidade mosaica Atena, Afrodite e Psique. Deusas de luto habitavam sua alma. Atena guerreira, oriunda da cabeça de Zeus, civilizada, sagaz, altiva, intelectual. Afrodite... a deusa do amor, a sensualidade a flor da pele, dona do sexo, da sedução e apreciadora das levianidades do Olimpo. Psique... a mortal que, ao encontrar o deus do amor (penso que talvez o amor-próprio)... tornara-se a deusa da alma. Havia um quê de fatalidade nas imagens apresentadas pelo inconsciente. Qual delas seria sua personalidade primária? A verdade é que elas não se davam entre si, mas haviam nascido tão juntas! Reconhecê-las em seus sonhos, mesmo machucadas e tristes, contraditórias, representava o estabelecimento e o desabrochar da totalidade originária potencial. Uma conclusão, portanto, poética e antipoética, afinal... composta por três deusas, nascia uma só mulher: plena, inteira, imortal!

Ilustração de Joaquim cartaxo
Texto inspirado em diálogos com a obra de Jung "A Psicologia do Inconsciente"

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Maus poetas


Os dias eram completamente diferentes uns dos outros. Fazendo com que questionássemos a verdade da existência da primavera. Mas não por isso, exatamente. Quando se sai das rotinas padronizadas, previamente estabelecidas como padrões de vida, fica-se a navegar a deriva, com o desafio de encontrar novas formas de viver.

Sim, questionamos tudo, as instituições sacralizadas, as obrigações cristalizadas, nossos próprios quereres primários. Nunca sabíamos ao certo o que era nosso, o que nos era imposto. O que era do outro. Por suposto. As brincadeiras com palavras permitiam algum fôlego. Um fazer artístico rudimentar e sem compromisso. Sem compromisso mesmo... não nos importávamos com quem leria as nossas cartas, fazíamos para nós mesmos ou para o vento. Ou um para outro. Ou para ninguém.

Sublimação definia um pouco das nossas intenções. Nas palavras e no modo de viver também. A escrita permitia que lêssemos a nós mesmos. Desde sempre foi assim, conosco, maus poetas descomprometidos, como também com os bons. Os imitávamos como quem comparecia numa festa a fantasia vestidos com os devidos arquétipos. Uma forma peculiar de diversão. Mas voltemos, no começo falávamos sobre a primavera... só não façamos confusão, agora era sobretudo, sublimação.

Mas sublimar o que? Sabíamos ao certo? As paixões reprimidas ou vividas homeopaticamente? As palavras engolidas diante das travas do outro, com o eu exposto e imposto? As amizades entrelaçadas, mas impedidas pelo tempo e espaço? As mágoas contidas nos devorando aos pedaços? O enxergar nossos próprios limites e o quanto somos por tudo culpados? As noites jamais terminaram ou terminariam como gostaríamos...

Sim e não! Escrever como diversão e sublimação era só uma desculpa. Uma história que contávamos para parecer simples. Nossos ensaios escritos éramos nós descritos. E as palavras eram mágicas, davam formas a um abstrato perigoso e resoluto. Iam despindo as almas, revelando intentos, tornando grande o que parecia pequeno. A poesia, de aparência inofensiva, uma arma que as vezes era cura... outras, veneno!

Ilustração de Joaquim Cartaxo - feita para esta narrativa poética.