Adoro perder meu tempo com várias coisas, e em dezembro e janeiro sou profissional em vegetar na frente da TV assistindo séries americanas dos mais diversos tipos, comendo muito e curtindo um sedentarismo crônico, ao invés de dedicar essas preciosas horas ao estudo ou ao exercício físico, aproveitar o Sol, a praia, ou qualquer coisa de gente normal e sadia em tempos de verão... no ano passado, meu irmão (o maior responsável pelo meu vício) me apresentou uma série que acho assustadora... chama-se The Walking Dead, é de zumbis... uma doença que praticamente dizimou a humanidade transformando todos em zumbis, mortos-vivos, cuja única função da existência é alimentar-se dos seres humanos que restaram. A série é ótima, e está na segunda temporada, e eu que sou meio psicopata, assisti todos os sete episódios que já saíram em uma única noite, sozinha... bem medonho... mas muito legal, é difícil eu ter tensão por causa de filme ou série, mas confesso, deu medinho. O legal da série não é somente o tema dos mortos-vivos, o bom é como o autor constrói as relações. Mostra que se ainda lutássemos de forma rudimentar pela sobrevivência, nossos valores morais seriam outros. E as pessoas que seriam líderes também seriam outras (o que se formos pensar em Brasília, até que não seria uma má idéia)... somente aqueles aptos a luta, a sobrevivência, com vigor físico, inteligência objetiva, agilidade e por aí vai... fico pensando como era há mil anos atrás, quando nada do que temos hoje de tecnologia existia... a vida era assim, pela sobrevivência, os valores também eram outros... e a minha conclusão é que eu não gostaria de viver neste tempo. Mas recomendo a série... tem origem em quadrinhos e é sensacional...
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Por Fernando Pessoa
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Labirinto
A vida é labiríntica. Não óbvia. Adoro isso, mas é sempre dolorido. No geral estamos preparados para o linear, para aquilo que planejamos. E quase sempre, tudo sai dos trilhos. Vem um fato e nos joga para fora de nosso roteiro, as vezes de maneira violenta e avassaladora... tem momentos que não sobra nada da gente, ou muito pouco.
Tudo o que queremos é nos sentirmos amados e termos condições de vida com qualidade. Por isso fazemos tudo o que fazemos, trabalhamos, estudamos, nos arrumamos, lutamos... porque queremos segurança. A segurança da subjetividade através do amor, do afeto, e a segurança objetiva, que no nosso mundo, é dinheiro.
Aí quando encontramos alguém, traçamos um plano, e a gente começa a dar passos em direção a ele... o problema é que a paixão cega, e qualquer noção de não linearidade da vida fica tímida. Quando estamos amando alguém tudo o que queremos é sermos comuns. Queremos ser apenas mais um dos milhões que se casam, tem filhos e vivem felizes para sempre (risos)...
Contudo, não é isso que acontece... volta e meia a vida inverte tudo e nos dá uma bofetada... acaba que temos que passar por um processo doloroso, cujo centro da dor passa por abrir mão de sermos amados... por desacreditar nisso. O que é a maior violência de todas. Abrir mão do amor do outro que você acreditava ter... que te encorajava para a vida, que te fazia forte, como dói... e ainda ficar com o amor nosso pelo outro gritando dentro da gente... que coisa mais horrível que é isso.
Também é violência abrir mão de sonhos e projetos, cada detalhe da vida medíocre que a gente sonhou... como é difícil abrir mão do nosso lugar comum... da zona de conforto que achávamos que havia.
Nos resta encarar seguir em frente no labirinto da vida... numa condição realista de que somos, do ponto de vista humano, seres solitários na essência... buscando não ser.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Memória seletiva
Aos poucos os ânimos se acalmam... as brumas se dissipam diante dos olhos e tudo vai ficando melhor. Porque a vida é assim... a arte de seguir em frente. E cada dia que passa vamos ficando melhores nisso, em juntar os cacos e recolocá-los. Nunca voltamos a ser o que éramos depois de quebrar o coração, mas a idéia é está mesma, nos tornarmos mais fortes, ainda que doa muito.
Estou lendo um livro legal, presente do meu pai... o livro é de Ricardo Setti, mas é sobre suas conversas com Vargas Llosa, Nobel em literatura em 2010... o engraçado é como me senti uma fraude diante do livro, porque nunca havia lido nada de Vargas Llosa, mas me interessei, apesar de ele ser totalmente avesso ao marxismo, que confesso, ainda tenho inclinações.
Tenho vontade de escrever literatura sabe.... acho que sou muito óbvia nas crônicas e nos poemas, indiscretamente auto-biográfica, gostaria de ter genialidade para me camuflar em minhas obras, para deixar minha imagem discreta, para distribuir minhas neuroses entre vários personagens. E por isso admiro quem o faz. Mas voltando ao Vargas Llosa, ao falar de sua obra e sobre o fato de só ter escrito sobre seu país quando estava distante disse: "A distância purifica essa coisa tão complicada que é a realidade - a realidade imediata é uma imensa vertigem que ao mesmo tempo produz exaltação e paralisia". Acho que isso serve para a vida... a realidade é difícil, produz um turbilhão dentro da gente que mistura sentimentos. Mas a distancia começa a deixar tudo mais sereno, mais em paz... isso serve para os lugares, para os relacionamentos, para o tempo... quanto mais distante estamos, mais as imagens vão se purificando, mais a realidade vai dando lugar a idealização... por isso que quem está no nosso passado parece tão mais perfeito do que aqueles que estão no nosso presente... por isso que a infância é tão exaltada pelas pessoas.
Eu particularmente acho que não tem fase da vida mais medonha do que a infância... somos vulneráveis, todos nos enganam, somos dependentes e com uma necessidade de sermos amados e cuidados que geralmente não é suprida por inteiro... ah, e fora como os nossos iguais, as outras crianças, são cruéis. Horrível, mas todo mundo acha lindo ser criança, todo mundo fica querendo voltar para trás.
É isso, a realidade é dura, a memória é seletiva e somos quase sempre uma fraude... enganamos a nós mesmos com uma imagem nossa e dos outros que não é real. Acho que preciso ler mais para me sentir menos fraude, ler os clássicos, ler ao menos o mínimo necessário para poder nivelar um pouquinho o meu muito me achar com aquilo que realmente sou... e escrever... preciso escrever muito mais, porque assim entre poemas e crônicas, entre e-mail e cartas, registro o que realmente sinto no momento em que a coisa aconteceu, publico para mim mesma o que eu realmente achava daqueles que estiveram em minha vida e o que eu achava de mim... assim corro menos risco de idealizar ou crucificar alguém no meu coração... quem sabe assim passo a ter mais noção do real.
domingo, 25 de dezembro de 2011
Serenamente
Serenamente eu relembro os dias,
E me pergunto porque estive lá.
A ausência de paz constante,
O excesso de tanto falar.
Lutos que não eram meus,
Produções que não eram minhas,
Um lugar que não era meu...
Uma vida que não era minha.
A ansiedade reinante.
A promessa do aconchego que nunca veio.
A duvida constante.
O excesso de receios.
Silêncios invadidos, amores massacrados.
Afetos não compreendidos.
Cordas que de tanto esticar, arrebentam.
Comidas para a alma que não alimentam.
Diante de um tempo que é passado recente,
Que a incomodação é latente,
Resta somente deixar o tempo passar,
Para poder curar uma dor.
Uma dor dessas que nunca se cura,
Que aprende a se agregar na gente,
Que vira lembrança distante na mente,
Quase discreta, incolor,
Mas ainda assim dói,
Por que mesmo diante de tanta contradição,
Insanidade, desfavor...
Esteve ali meu coração,
Cometendo a loucura de construir o amor.
Autenticidade
Não sei ao certo quantos leitores me restarão devido a minha ausência das redes sociais. Contudo, tenho certo que alguns ficarão... gosto que as pessoas leiam meus textos, mas sei bem que, em última instância, escrevo por que me é visceral. Quando fico sem escrever tenho a impressão que algo dentro de mim apodrece, por isso, escrevo, para jogar toxinas para fora, para limpar a alma. Então vou preservar o blog... não estou mais no facebook e nem no orkut, é claro que do orkut já fui tarde... do face foi uma opção de não exposição... e também por economia de tempo... claro que eu vou sofrer crise de abstinência, mas será uma boa experiência. Mudanças me deixam meio desconfortável, mas gosto delas... sair das redes é uma mudança que pode ser temporária, mas é simbólica, quero começar o ano cheia de transformações. E para além dessas que já citei, estes dias li o blog de uma pessoa que gosto e achei muito interessante sua proposta para 2012... disse que sua principal meta é ser menos fraude em 2012. Achei ótimo, pois tenho uma teoria que a maioria das pessoas se sente uma fraude, que no fundo fazem uma auto-promoção de si mesmas que não condiz completamente com o real, ou as vezes até condiz, mas a pessoa não se sente... e quero isso para mim em 2012, ser cada vez mais autêntica. Assumir menos as coisas que sei que não darei conta.... acho que isso é pura arrogância, querer salvar o mundo, apresentar soluções para problemas que não são nossos. Quero parar de assumir responsabilidades que não são minhas, cuidar de pessoas que não são os meus. Também não quero abrir mão de nenhum traço da minha personalidade... há algumas convicções que tenho que são valores, que foram sedimentadas em mim a muito tempo e com muito cuidado... minha concepção de modelo de vida, de completude que foge ao senso comum, não aceitando que nos relacionamos com alguém para nos sentirmos completos. Somos completos em nós mesmos e nos relacionamos por outros motivos ... essa concepção é algo que não vou abrir mão. Meu entendimento da importância da individualidade (que é diferente de individualismo), de ter meu espaço objetiva e subjetivamente respeitado, quero que permaneça e ganhe proporções ainda maiores. E nunca, nunca quero ter que demonstrar nenhum tipo de afeto por obrigação, por causa da demanda do outro... afetividade, amor, carinho é fato, não dá para pedir.
Estou falando isso, reafirmando meus princípios, criando prova do que eu penso ao escrever neste post e publicá-lo para que ninguém esqueça e nem mesmo eu, de que sou assim. Para que ninguém tente a façanha (que já nascerá fracassada) de me mudar... não quero estar com alguém que tenha valores muito diferentes dos meus. Sou assim, como diz meu pai, uma alma de cem anos, que não engole papo bravo de fazer tudo juntinhos, de só tomar decisões juntinhos, de ser sempre sincero, o típico sincericídio que só acaba de destruir a auto-estima das pessoas. Ninguém é sempre sincero... somos cheios de segredos, de gavetas trancadas que nunca serão abertas.... somos um infinito particular, no qual ninguém estará nunca pronto para entrar. Com o tempo revelamos parte do que somos ao outro... mas jamais alguém terá a real dimensão de quem somos... o senso comum, o machismo, a pobreza de espírito, a ignorância, a inocência e etc adora hipocrisia, adora pensar que um casal que se ama será a mesma coisa, que se misturarão de tal maneira que não haverá nenhum abismo entre eles nunca jamais. Se isso fosse verdade, não haveria tanto divorcio por aí. O melhor não é essa hipocrisia de que seremos felizes para sempre e de que não vivemos sem o outro, todo mundo vive sem o outro, pode não querer viver, mas vive... o melhor é reconhecer que a coisa não passa por aí... que tudo na vida tem chance de não dar certo, que as pessoas são imensas em sua individualidade, que há questões que não dizem respeito ao cônjuge, que ninguém pode completar ninguém, que o amor só vive se for espontâneo e tiver liberdade. Penso que se entrarmos num relacionamento sabendo disso, abrindo mão das nossas ilusões infantis dos contos de fadas... se colocarmos a prova as concepções pequenas da ignorância vigente... acho que teremos infinitamente mais chances de fazer dar certo e construir bons relacionamentos não baseados em ilusões (contudo, teremos apenas mais chances, porque nada é realmente garantia), mas baseados na verdade de que somos humanos. E vamos a 2012... com o foco de sermos cada vez mais nós mesmos.
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