quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Entre o Gelo e o Fogo


Entre os riscos e os afetos nasciam estéticas que demandavam salvaguardas, frágeis como cristais. Um equilíbrio que dependia de dosagens refinadas e mudanças sistêmicas por vezes proliferavam, de fato, a desorientação e a impotência. 

Já que os pensamentos heréticos conduziam ao profundo exílio dentro de si mesma. Gozava de algo que poderia chamar de um despertar em breves momentos, uma alegria transitiva e transitória, reivindicativa de hipóteses, perseguia o rastro de perfumes exalados de gostos que se renovavam mas que também lhe confundiam entre tantos zumbidos existenciais. 

Superestimações idólatras evidenciavam quesitos que qualificavam e desqualificavam a vida, questionando a autonomia como um bem absoluto. Outros aspectos avassalavam o pensamento questionando se o futuro outrora previsto, existiria. 

A perda do viço existencial, a distância do apogeu do regozijo, a impossibilidade da surpresa, a artificialidade da celebração remota, o ciclo vicioso de padecimentos, o prenuncio do gozo não consumado, o olhar esperançoso não contemplado, a confusão entre o riso e o choro, traduzia a vida entre o gelo e o fogo!

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Nunca Mais Primordial


Daqui tudo parecia tão longe... 
Os olhos não viam mais o que lhes eram antes sua imagem principal. 
A imagem que se desdobrara em tantos aspectos, nunca mais primordial. 
Hoje sem luz, sem eco!
Os dias se passaram como séculos e séculos, 
Confirmando a relatividade ou talvez até mesmo a inexistência do tempo. 
Negando tudo o que antes fora traduzido como o critério de bom senso.
E o lastro do caminho percorrido, a poeira do que já havia ido, 
Era tudo que restara.
A densidade virou nada. A intensidade dissipada. A eternidade calada...
Cada palavra, negada. Cada narrativa, mentira. A velha terra, arrasada. 
Instala uma nova era... 
Foi-se o tempo, o mundo gira e logo chega uma nova primavera. Pensava ela...
Espera, espera... talvez reste alguma saudade... alguma meia verdade...
A poesia...? Que mesmo na memória atravessada pela espada envenenada e forte,
Talvez com algum norte nos visite... nos lance alguma sorte.
A arte? O estandarte transcendente. Tão crente. Mas no fundo, o retrato da morte.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Monólogo


As sensações pareciam ser sobre as vestes que não tinha para se adequar naquele dia... os tecidos que repousavam por uma camada mais profunda do que a sua pele material, causavam desconforto e uma quase dor. Diante de sujeitos atuantes e padecentes, rudimentarmente fazedores de regras tão velhas e ineficazes, o paradoxo apresentado era quase isento de sentido. Explicações objetivas do óbvio eram desacreditadas por representações correntes. E apesar de as sensações serem indubitavelmente pessoais, localizavam-se em um substrato psíquico historicamente elaborado, originariamente provindo de conteúdos em estados reprimidos ou esquecidos. Uma onda avassaladora logo se apropriava e estragava a frágil e inconstante plenitude do ser. As suas vestes estavam inadequadas? Ou a ocasião era ausente de sentido para além do espelho social. O que era real... o encontro socialmente determinado ou a simplicidade de sua vestimenta questionada? Atenta... nem tanto. Limites dialogados tardiamente geravam uma imagem de aparência inconsequente veementemente não aceita. Mas não, a loucura não era a inversão da lógica, a insanidade estava na lógica em si. Contradição. Perturbações oníricas. Inadequação. Sapatos apertados, vestidos incômodos, estojos pequenos demais... relações precárias que não retornavam ecos necessários. Os ecos não eram inexistentes, mas distorcidos, insuficientes, simplórios diante de uma demanda complexificada ao longo dos anos. A base nunca era a sua medida, mas a medida do outro se impunha como referencial. Uma identidade permanentemente questionada. E além disso, não entendida, não escutada. O mundo não era um lar, um lugar de acolhimento, lhe parecia mais um palco cujo único espetáculo vigente era o monólogo de alguém desconhecido, despreparado e completamente desinteressante. 

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Desconfiguração


Os seus sentidos foram capazes de captar a desconfiguração do corpo alheio. Um querer incompatível com o poder. Um poder exercido nos marcos da suavidade, não exatamente determinado pelo exercício da vontade. Uma energia sutilmente amarga denunciava que algo estava fora do lugar. Mas, pequenos detalhes de deleite e incômodo pulsavam-lhe também a percepção. E era bom! Bom por agora, bom por hora... bom para ela. Aqueles sentimentos que cumpriam com maestria o seu papel. Qual papel? O de impulsionar sua criatividade, de construir outras formas de linguagem, de rememorar a necessidade de uma vida em movimento, um convite a não obviedade da história. Era bom lidar com uma pulsão tão peculiar, tão diferente. Com um tom de comicidade e ao mesmo tempo eloquente. No entanto, nada era verdade, assim como também não era mentira. Apenas era, foi, esteve, talvez um dia volte. Talvez um grande azar, talvez nada,  talvez uma sorte. Talvez a energia amarga e sutil fosse um anúncio de morte.

terça-feira, 19 de março de 2019

Angústias Milenares


Passagens milenares se colocam no diálogo do agora. Quantos indivíduos trocaram energias similares em outros tempos e contextos, embevecidos das mesmas angústias? O rigor da articulação das palavras nos é próprio e peculiar, mas o conteúdo possivelmente não. Sinto nas expressões de Beauvoir a mesma dor ao questionar os privilégios de Sartre, e através dele, questionar a metade privilegiada do mundo todo, entregando a nós, de seu infinito interno, um tesouro sem precedentes. Talvez também nos diários de Zelda contivesse tal energia no confronto a F. Scott Fritzgerald que além de silenciar, roubava-lhe as palavras... Ah quantas palavras nos são constantemente roubadas, eles tiram daqui e levam para lá, roubam de lá e trazem pra cá... Confronto misturado, movimento por dentro do próprio movimento. E no Conto de Aia, e nas histórias de Virgínia Woolf, e em cada postagem angustiada querendo mudar o mundo de cada uma destas mulheres que em algum dia e em algum lugar perceberam que o mundo não é bom para nós. Na verdade mais que isso, perceberam e puderam dar nomes aos seus monstros, algozes, angústias. Poder de representações, que coisa poderosa são as palavras, quando são escutadas, é claro! O que, em nosso caso, é raro! Mas a palavra essencial é também silêncio, ou talvez totalmente o silêncio, presença serena do nada criativo. Confesso que as vezes gostaria de gozar deste lugar... me sinto cansada de tanto falar. Exausta é a palavra. Gostaria que meu silêncio fosse escutado como o silêncio deles o é. Mas se eu não falar, gritar, confrontar eu não existo. Minha existência precisa ser constantemente provada, nunca se deixar determinar, porque é o tempo todo determinada, determinada a retraimento e ausência de mim mesma, a ser preenchida por eles, com suas pretensões de onipotência... existência que nasceu determinada por aquilo que não sou. Empenhos de perguntar e desempenhos de responder.... jogo infinito de linguagem se transformou em nossa única saída, das profundezas dos pressupostos, uma cadência regular, uma precarização relacional para relacionar. Nas constelações de junturas dinâmicas... eu sustento o meu ser, mas junto a mim se encontra o meu querer transformar o mundo contestado por meu amor por você!

Ilustração de Joaquim Cartaxo

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Presença


Havia mil questões que talvez se pudesse indagar. 
Problemas e especulações, 
Temas restritos tomados por objetos de investigações. 
Emoções outrora pormenorizadas, 
Davam lugar a atitudes menos comprometedoras. 
Observações pertinentes criavam um cenário de recepções de afabilidade, 
Revelando-os como partes perfeitamente contínuas. 
Em estruturas sublimes, como também ridículas. 
Alguns pontos do mundo dos sentidos eram diligentemente procurados... 
Outros ainda resistentes a explicação. 
O alcance da memória, apesar dos incômodos, traduzia satisfação. 
A metáfora expressava agora a literalidade de antes 
Ou a metáfora de antes se expandia no agora em outros temas e expressões? 
Possibilidades emanavam das novas vontades desconhecidas.
Estímulos ressignificados em um poder barroco, 
Um tanto sagrado, e um tanto mais profano. 
E o engano, inicialmente deu lugar a um desengano... 
E aos poucos foi substituído por uma satisfação despretensiosa.  
Sendo assim, o que antes estava no campo da ausência mesmo estando ao alcance, 
Tornou-se uma presença, presente, serena, perene, ainda que distante. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Ai...


Ai de mim...
Ai de mim que acreditei tanto. Cuja decepção pulsa, que me sinto ferida, invadida, machuca, exausta num pólo inverso do que eu gostaria, na intensidade intacta, mas sombreada pela dor, pela energia da morte, pela energia do não, do contrário, do pouco, do abstrato, do simplismo, da ausência. Ai de mim... cujo silêncio transbordou pelo gatilho nítido, pelo pequeno que disse do todo, pelo engodo, pelas palavras malditas e mal ditas ou não ditas. Pelo grito. Pelo meu grito exausto, outrora calado, violado pela escuta permanente ao outro, pelo vazio impresso, labiríntico, na frequência do que era ausente, ausente, ausente! Ai de mim... cujo medo existe, persiste, insiste, avança, me alcança, não se cansa, não descansa, me encolhe, não acolhe, não escolhe e escolhe... escolhe longe. Onde está a ponte? Onde está o abraço eternizado, onde está o que nunca houve, onde está? Onde estou? Ai de mim....

Ai de você...
Ai de você que nem sabe, que nem sente, que nem pode saber... que permanece num controle de coisa alguma... que é dirigente de um vazio, que conclama para o nada, que imprime a ausência da graça, que não ama, que disputa, que permanece onde está... mas onde está? Não há, não é! Ai de você que nunca viu o que é... que  nunca pôde ser, que nunca pôde estar, amar, desenhar, fazer. Que sempre viu de fora, que não soube o dia seguinte, que nunca pôde ser um verdadeiro ouvinte... Ai de você... cujo abraço não acolhe, não recolhe, não mistura, não segue em frente, não tem futuro, não sonha, não sofre... que não tem poesia, não sabe da alegria, que não vai a festa, não escuta a seresta, que faz tudo em parte, que não flui a arte... ai de você que engole a si mesmo, cada emoção, cada afeto vulgarizado pela arrogância, pelo exercício do poder. Ai de você que não sabe o perdão, a desculpa com os olhos nos olhos, que não é amigo de ninguém. Que não briga, não abriga...Ai de você...

Ai de nós...
Ai de nós... que fomos avassalados por emoções contidas, que somos condenados ao desencontro, que fomos separados pelos desencantos... que teremos as memórias esquecidas... em nossos cantos... cantos da sala, cantos do quarto, das sacadas. Cantos silenciados. Ai de nós... cujas nossas músicas nunca serão tocadas, as almas, em vida... penadas, penalizadas, encurraladas. Ai de nós que não pudemos sonhar, e não sonhando, não pudemos realizar... que os planos eram esboços reprimidos de uma vida impossível. Ai de nós, partidos, no coração, nos corpos, nas vidas... nos partidos repartidos pelas partidas. Ai de nós, ai de nós, ai de nós! Que não nos amamos e não somos amigos...
Ai de nós... não há abrigo... eu e você, o todo...Ai de nós...!

sábado, 15 de dezembro de 2018

Amantes


As comunicações tácitas incomodavam, rasgavam o peito. Ao mesmo tempo que lhe acariciava. Sabia que estava sendo observada. Talvez lida. Uma parte sua guardava a tentação de estar fora daquele olhar que tantas vezes pudera ver presencialmente, atentamente... bloquear passava por sua mente... os olhos dele agora eram manifestações quase estranhas... tanto que nem lhe pareciam reais. Não tinha notícias do lado de lá. As últimas que obtivera não a fizeram feliz, ao contrário, criaram um abismo maior dando embasamento para afastar-se ainda mais severamente. Dias de raiva, dor, rancor. Uma traição silenciosa cuja causa não sabia ao certo qual era. Acusá-lo do quê? Tentava! Queria minimizar seu senso de empatia a todo custo. Desumanizar a presença dele ainda tão intensa. Tentava! Mas tentar é o mesmo que não conseguir. Não podia. Seus pensamentos ainda estavam bagunçados, seus sonhos perturbadores num sono sempre mal dormido. Luto por alguém tão vivo? Apagá-lo de sua história depois de tanto impacto causado? Preservar a gratidão. Gostaria... ou não. Ser grata, reconhecê-lo humano seria sinônimo de um amor ainda expresso, impresso, intenso gravado na sua própria pele. Lembrava dos motivos de sua partida, legítimos, dignos, cristalinos. Mas não era só isso... sua memória também era composta de manifestações transbordantes, de prazer, de trocas inéditas. Angústia. Os olhos enchiam-se de lágrimas, mas ainda não conseguia chorar, as lágrimas não escorriam. Dores. O corpo chorava por dentro o choro que não caia pra fora. História. Sabores. Sacadas. Diálogos. Descobertas. Pertencimento. Falta. Alma. Calma, calma, calma... dizia a si mesma "tudo vai passar, estamos na pior parte". Olhar para trás. Mas não havia caminho de volta sem negar-se... não havia estrada pra frente sem deixar para trás um pedaço de sua carne, de seu espírito. Viradas de chaves incompletas, repletas de sensações febris. Calor. Frio. Os sentidos do corpo que buscavam sentidos outrora experienciados. Desamor... amor... amados... amantes... tão perto, distantes.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Três


Existem sonhos que são pura poesia, mas existem pesadelos. Ela ainda não tinha certeza sobre em qual estado onírico estivera. Mas guardava a sensação de que seu entendimento simbólico não seria o bastante para interpretá-lo. Buscava ajuda. Dialogava mundo afora, sem as barreiras do tempo. No entanto, guardava uma impressão antipoética na garganta. Um sentimento nítido de ter se deixado invadir. Não sabia se a invasão havia sido feita pela natural intensidade da poesia ou pela antipoesia da vida real em sua face mais dura. Ou as duas. Em qualquer hipótese, uma certeza, tudo era por sua própria culpa ou mérito, a depender do referencial! O sonho havia tido um ardente apelo estético e emocional, talvez por isso lhe restara tantas dúvidas. Metáforas. A vida era metáfora da vida, os sonhos também, tudo se repetia. Qual era a matriz da sua história? A primeira experiência que a mantivera no mesmo círculo por tanto tempo? Três mulheres, ela já as tinha visto, vestido suas especificidades, vivendo de maneiras peculiares a mesma trajetória. Uma em três...como se fossem vidas diferentes, sem serem. Talvez uma versão herege e feminina da divindade ocidental de agora. Todas estéticas, arquetípicas, radicais. Mas sempre repetitivas. Compunham sua identidade mosaica Atena, Afrodite e Psique. Deusas de luto habitavam sua alma. Atena guerreira, oriunda da cabeça de Zeus, civilizada, sagaz, altiva, intelectual. Afrodite... a deusa do amor, a sensualidade a flor da pele, dona do sexo, da sedução e apreciadora das levianidades do Olimpo. Psique... a mortal que, ao encontrar o deus do amor (penso que talvez o amor-próprio)... tornara-se a deusa da alma. Havia um quê de fatalidade nas imagens apresentadas pelo inconsciente. Qual delas seria sua personalidade primária? A verdade é que elas não se davam entre si, mas haviam nascido tão juntas! Reconhecê-las em seus sonhos, mesmo machucadas e tristes, contraditórias, representava o estabelecimento e o desabrochar da totalidade originária potencial. Uma conclusão, portanto, poética e antipoética, afinal... composta por três deusas, nascia uma só mulher: plena, inteira, imortal!

Ilustração de Joaquim cartaxo
Texto inspirado em diálogos com a obra de Jung "A Psicologia do Inconsciente"

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Maus poetas


Os dias eram completamente diferentes uns dos outros. Fazendo com que questionássemos a verdade da existência da primavera. Mas não por isso, exatamente. Quando se sai das rotinas padronizadas, previamente estabelecidas como padrões de vida, fica-se a navegar a deriva, com o desafio de encontrar novas formas de viver.

Sim, questionamos tudo, as instituições sacralizadas, as obrigações cristalizadas, nossos próprios quereres primários. Nunca sabíamos ao certo o que era nosso, o que nos era imposto. O que era do outro. Por suposto. As brincadeiras com palavras permitiam algum fôlego. Um fazer artístico rudimentar e sem compromisso. Sem compromisso mesmo... não nos importávamos com quem leria as nossas cartas, fazíamos para nós mesmos ou para o vento. Ou um para outro. Ou para ninguém.

Sublimação definia um pouco das nossas intenções. Nas palavras e no modo de viver também. A escrita permitia que lêssemos a nós mesmos. Desde sempre foi assim, conosco, maus poetas descomprometidos, como também com os bons. Os imitávamos como quem comparecia numa festa a fantasia vestidos com os devidos arquétipos. Uma forma peculiar de diversão. Mas voltemos, no começo falávamos sobre a primavera... só não façamos confusão, agora era sobretudo, sublimação.

Mas sublimar o que? Sabíamos ao certo? As paixões reprimidas ou vividas homeopaticamente? As palavras engolidas diante das travas do outro, com o eu exposto e imposto? As amizades entrelaçadas, mas impedidas pelo tempo e espaço? As mágoas contidas nos devorando aos pedaços? O enxergar nossos próprios limites e o quanto somos por tudo culpados? As noites jamais terminaram ou terminariam como gostaríamos...

Sim e não! Escrever como diversão e sublimação era só uma desculpa. Uma história que contávamos para parecer simples. Nossos ensaios escritos éramos nós descritos. E as palavras eram mágicas, davam formas a um abstrato perigoso e resoluto. Iam despindo as almas, revelando intentos, tornando grande o que parecia pequeno. A poesia, de aparência inofensiva, uma arma que as vezes era cura... outras, veneno!

Ilustração de Joaquim Cartaxo - feita para esta narrativa poética.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Eu!

Totalidade circunscrita, 
Interesses sistemáticos, 
Conhecidas e infindáveis perguntas! 
Eu! 
Onde estavam em mim as lacunas que proporcionaram conexões tão viscerais? 
Analisar o outro era sempre uma tentação sem pudores. 
Analisar a si mesmo um caminho amedrontador. 
Objeto, sujeito, arquétipo! 
Freud, Adler, Jung! 
Libido, poder, introversões e extroversões. 
Amor, ego, construções histórico-sociais. 
Os efeitos provenientes de si próprio, 
As histórias repetidas ciclicamente durante toda a vida, 
Guardando sempre inéditos requintes de deslumbramentos. 
Efeitos incontroláveis de fundo psíquico. 
Indagações aparentemente casuais. 
Contínua atuação recíproca sobre o outro em molduras acanhadas, 
Generalizações sempre precipitadas a um aspecto único. 
Tudo e nada. 
Ocasião de assumirem identidades individuais. 
Teorias sempre e indevidamente atualizadas. 
Agrupamento gradual de fragmentos. 
O tempo, o tempo, o tempo. 
De cujo evoluir não é possível escapar, 
De cujas palavras se pode engasgar. 
Participações místicas, 
Monstros de cabeças infinitas capazes de reduzir o pensar. 
Em não se tratar de objeções justas ou injustas, 
As portas da fantasia, 
Com capacidade relativa de sublimação, 
Evocava-se então a função reguladora dos contrários. 
Pois a saber que a plenitude da vida tinha normas e não as tinha, 
Sendo racional e irracional. 
Pensava, puxava os fios condutores, 
Escrevia e temia perder o controle. 

Ilustração de Tanya Shatseva (disponível no Instagram)

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Saberes de loucura


Quem se atreveria a uma contraposição poética 
Capaz de anular os trâmites do eu? 
Só o fluir nos resgataria 
Da inconsistência absurda 
Dos pequenos rumores periféricos do agora. 
Histórias... memórias... 
Tempos idólatras e nós também! 
Muito mais além. 
E logo na próxima esquina... 
Espectros. Sinais. 
Outros temores, rumores demais. 
Tudo ruía... 
Os desabamentos das impressões nítidas, 
Das expressões implícitas, 
Das compreensões tácitas, 
Das rotinas da vida estática. 
Nada, nada mais. 
Sabores cítricos,  
Saberes críticos,
Inclinações investigativas 
Penetravam antigas prerrogativas 
Há muito perdidas 
Mas esquecidas jamais. 
A confusão imposta,
Respiração gritante, 
Face rubra exposta, 
Fantasias irreais. 
A espera vazia, a noite caía... 
A Lua alta, o vento forte... 
Gente que ficava para trás!
Que azar, que sorte. 
O que não parecia, 
Era vida,
Mas sempre um pouco mais de morte.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Contextos


Tinham direções opostas que em breve encontro, num cruzamento ilógico, se confirmaram como uma única direção. Quase que por acidente... numa obra fina, e talvez obra-prima, do tempo e do espaço como os mais falsos protagonistas. 
"O tempo e o espaço não existem" - afirmavam em suas evidentes arrogâncias e inseguranças do primeiro encontro...

As demandas de suas camadas mais evidentes, na parte de suas identidades cheias de comprometimento com a vida, de maneira inglória,  pulsavam pelo amor como princípio de não dominação, mas isso apenas quando, fundamentalmente, a gramática do inconsciente os mantinha livres do superego das doutrinas oficiais. 
"Estamos em permanente desconstrução" - o que seria uma mentirosa afirmação não fosse um olhar muito atento a considerar passos lentos.

Talvez o destino gargalhasse deles, o desencontro de uma década que guardou um encontro avassalador. Os olhares fascinados, se fitavam e se perdiam no infinito reflexo dos seus abismos, talvez transbordantes de tudo, talvez apenas cheios de nada, mas firmando-se como uma força capaz de submeter as naturezas alheias.
"Em você... eu me perco e me encontro" - diziam em êxtase, sem muita explicação!

No entanto, se encontravam num complexo trânsito de difícil fazer e dizer, eram limitadas suas capacidades de adaptação e construções de consensos imediatamente eficazes, diálogos plenos diante de suas relativas maturidades. Dificuldades estas não somente no exercício a dois, mas principalmente, diante do enfrentamento individual de cada uma de suas identidades idiossincráticas de antemão. 
"A vida não é linear e nem estática" - matéria prima de autoperdão...

Fases de declínio, energias em esgotamento faziam com que na distância degustassem boas doses de agonia, como também grandes parcelas de memórias do prazer e do calor. Memórias estas, que eram parte das causas de êxito de tão estranha interação, pois estavam acariciadas por suas relações contraditórias, embora não sem dor, com o poder e com o amor. 
"Ah o amor... tudo era sobre o amor!" - de novo e de novo...

Registros


Os presságios anunciavam a intensidade da energia movida no Universo. Tudo estava ligado por linhas relativamente invisíveis, mas nítidas como a própria dor de existir. E fosse como fosse, não podiam resistir as verdades apresentadas. As almas transbordavam suas virtudes e vícios, seus padrões e suas necessidades de transformação. Do lado de cá, uma força se restabelecia, constituindo a sanidade de mãos dadas com a loucura... a explosão como cura, na qual toda a experiência outrora vivida servia como referência para a reinvenção. Do lado de lá, caminhos sombrios, a tristeza, a emoção a flor da pele tomava o lugar das simulações padronizadas, dos autoenganos cristalizados que dissimulavam a dor. Ambos viviam o desfecho de uma vida bem ou mal, mas intensamente, vivida. Tudo fora posto na mesa, os elementos de morte, cura, culpa e vida. Era possível duvidar de resoluções fáceis, redignificar a própria história seria tarefa difícil. Construída passo a passo, que incluía cortar na própria carne, colocar limites na pulsão de estar diante do outro, dos olhos bem quistos, dos afetos pulsantes que ignoravam qualquer verdade além do amor a ser vivido, do outro a ser acolhido. Mas a grande lição é que o amor resiste a verdade. E que ele não é óbvio e permeia todas as dimensões do ser. Se constitui na complexidade das ações. Na desconstrução do maniqueísmo, no olhar mais atento, na interpretação profunda da vida. "Interprete a vida!". Interpretar a si mesmo nos passos dados, nas pulsões sem explicação. Ninguém volta ao mesmo lugar depois de expandir, ou ao menos não deveria, volta e meia encolhemos o pensamento e voltamos a rudimentariedade outrora vivenciada. Mas as experiências estão lá, prontas para serem acessadas, para dar suporte a um novo ciclo de expansão. Relação. O enxergar ao outro é ver a si mesmo! E quantas vezes nos cegamos. Mas naqueles dias a vida cobrou bruscamente as vendas nos olhos que optamos por usar. Transbordou! Avassalou tudo! Sacudiu o mundo. Tudo estava devidamente registrado. Havia uma proximidade na distância estabelecida, um entrelaçamento cristalino, nunca tinham sido tão próximos... 

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Alma-Império


Polariza o teu amor do jeito que quiseres,
E te encanta ao acolher os teus quereres.
Queira o querer que em ti sempre esteve,
E de ti mesmo, o teu amor, te empoderes.
Dê os passos na direção do teu mistério, 
Mergulha em teus desejos escondidos,
Reflexo dos amores ensinados outrora recebidos,
Revelando a essência, fundamento da tua alma-império!

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Carta para Alice


Querida Alice,

essa não é a primeira carta que eu te escrevo. Aliás, talvez sejam mesmo para você todos os meus escritos, mesmo quando para outros. É à você que pretendo deixar os registros da história. No entanto, minhas cartas para você propriamente ditas nunca foram publicadas. O que talvez seja uma pena... e também um alívio.

Hoje acordei estranha, Alice. Sinto que estou com alimentos oníricos e questões da alma um tanto mal digeridos. Tem sido tantas formulações e em conclusão nenhuma. E acho que a indigestão me criou uns bloqueios. Ando meio sem sentir. Umas tantas camadas inibem minhas pulsões. Nem recebo as alegrias com fervor e nem as tristezas com o devido drama. Estes dias quase consegui... nas tristezas talvez seja mais fácil... não carregamos culpa em ser tristes, Alice. Mas em sermos felizes, ah... não posso dizer o mesmo.

Há poucos dias estive em lugares que não havia estado antes, conheci pessoas que não conhecia. E como são complexas as almas e como os corpos são tentadores. Não há pensamento linear que defina aqueles que aceitaram o desafio de viver sua própria identidade. E a minha identidade é cheia de paradoxos, contradições e angústias... e a dos outros também.

Sabe, Alice, no fim é tudo sobre o amor. O problema é que as "sociedades" inventaram receitas pré-fabricadas para amar. E isso é errado. O amor apenas é. De um jeito ou de outro. Tem amor que não cabe na nossa cabeça, tem amor que não cabe no nosso coração, tem amor que não cabe no nosso corpo. Mas é amor também. Tem amor que cabe em todos os nossos lugares. Tem amor que cabe por muito ou por pouco tempo. Tem amor incabível, tem amor intransponível. Não importa.

Ontem assisti um filme que o protagonista dizia que aqueles que se amaram um dia tem de no mínimo serem amigos para sempre. E acho mesmo, Alice, que basta um dia para amar infinito. E que bom seria se todos os que amamos e se distanciaram de nós por algum motivo, fossem nossos amigos para sempre. É lindo... mas acho que tenho mais amigos que nunca foram amores do que ex-amores amigos. Talvez eu não seja tão boa nisso.

Mas ainda sobre o amor, a verdade Alice, é que a gente é muito ruim de amar. A gente confunde amor com idolatria... tanto pra um lado como para o outro. Explico. Ídolo no conceito bíblico é um objeto com o qual tentamos substituir Deus. Ora tratamos o ser amado como deus, ora como objeto. Colocamos nele a expectativa que só poderia ser cumprida pelo Criador... desejando que ele atenda nossa vontade na exatidão de nossa exigência... mais ou menos o que esperamos de um forno microondas. Idolatria é um tipo de uso... amar é se relacionar, se comprometer, montar um quebra cabeças todos os dias. E aí, o lance é que volta e meia o outro também encarna o ídolo, se coloca como tal.

Amor é outra coisa. Amar é se ver como igual. É uma frequência em outro patamar. As vezes eu sinto, vivo, experimento o amor. Sempre que dá certo...eu estou pronta a viver o amor, ou as vezes, quase pronta, mas a gente ama assim mesmo. Por que não tem nada pronto na vida e também não tem descanso... o que mais se parece com descanso, Alice, é mesmo o amor!

E parece clichê, mas o amor é a melhor coisa do mundo, garota. E não tem receita não. Sempre quando eu paro, tiro o piloto automático do comando e assumo o volante, eu começo a sentir um pouco mais, saio da anestesia estranha e sinto tudo. Começa por sentir a gente mesma, desconstruir aqueles desamores que carregamos ao olhar no espelho, ao expressar a nossa opinião, aquele medo que dá, Alice, pois é... é ali que mora o desamor.

O medo de ser quem somos, da não aceitação do outro e da sociedade, do julgamento... esse medo vai criando raiz, se expandindo dentro da gente para diversas partes, quando a gente vê... a gente é puro medo e quase nada de amor. E nossas lacunas passam a falar mais alto do que as colunas do amor e de nossos sonhos. O que sobra é uma alma implorando uma migalha daquilo que é abundante no Universo... a gente acha que é pobre de amor, mas é rica, muito rica, Alice.

Por dentro de mim... é um pouco isso, minha querida. Por fora, tudo vai estranho também... os movimentos jogam as frequências cada vez mais para baixo. O medo que era mais dentro invade lá fora. E as vezes, quando a gente sente, a gente chora... mas não é sempre.

Só não se esqueça, Alice, tudo é sobre o amor. 

Eu.


terça-feira, 6 de novembro de 2018

Muito mais além!

As demandas do agora
Que me tiram do lugar,
O tiro seco, o rosto pálido,
O mistério a revelar.
O surto que inundava o quarto,
A narrativa desforme...
A negar a vida tão inadequada
E tão dentro do conforme!
Não, não e não...
Não haveria demanda do corpo
Que alimentasse o coração.
Uma oração silenciosa
Ensurdecia o sentido não exercido,
O não-ser escondido
No que se era também.
O agora, na hora...
E muito, muito mais além!


Texto sem fim...

As faturas da vida criavam dívidas impagáveis e desleais com quem se apresentasse disponível décadas depois das dívidas contraídas... haja juros emocionais para tantos déficits primários oriundos dos corações machucados pela vida afora. Portanto, não haveria zona de conforto. Uma vez resolvido aqui, logo se desvalia ali... e a reconfiguração e expansão das plataformas da alma eram constantemente provocadas. Simploriamente revelada pela metáfora do carro velho... quando terminávamos de consertar algo e pagar a conta, outra peça tinha seu prazo de validade vencido, num círculo infinito de arranjos e arrumações. Talvez por isso ela necessitasse de tantos instrumentos de manutenção. Tudo era um grande aparato para formulação de si... fossem as terapias alternativas, as interpretações de sonhos, a identidade revelada no trabalho, as leituras, as conversas sem fim com os interpretes da alma, as alucinações conscientemente provocadas, as elaborações do fazer amor... e a escrita, é claro... pois cá estamos. E sem nos perdermos do tema... houve um sonho... num sábado a noite qualquer. A verdade é que dormiu sentindo profundamente uma falta. Uma falta que parecia de alguém. E sonhou, sonhou um daqueles sonhos que se acorda lembrando, desperta-se sobreaviso, entendendo que algo precisa ser entendido. A começar pelas semelhanças que não eram coincidências, reveladas pelas pontes oníricas, mas que agora, nas noites subsequentes, não a deixavam dormir. E para avisar a alma, limitavam o corpo. Enquanto ia percebendo seus níveis motores baixarem a potência, obrigava-se a escutar a difícil trama narrativa do inconsciente tornando-a febril pouco a pouco, meio doente, meio surto. Elementos de amores-pretéritos revelavam os pavores das relações-presente. E a contradição filosófica liberdade-segurança traziam a tona a liquidez das tramas do agora... nada nunca seria o suficiente para as demandas do coração. Porque o preenchimento devido não era aquele que o agora pretensiosamente se propunha a preencher. Os medos eram cumulativos, mas uma coisa só. Verde ou maduro... sentia a mesma sensação... projetava no hoje a ausência de ontem, sabotando por dentro de si a existência do amanhã. 
E as faltas eram uma percepção já mais elaborada... no início apenas não se sentia apta. Passeava pela vida onírica a transferir os próprios bônus e ônus que tornavam a vida, a vida! Não há dor sem delícia e nem delícia sem dor, mas no início parecia não saber, anestesiava-se de sua própria geração de vida, duplamente gerada por ela e feminina! No desenrolar da trama, se surpreende ao perceber sua própria alienação... como pôde negar-se a plenitude da vida? Passa então a reivindicar o óbvio, mas que outrora deliberadamente alienado, passou a ser o não-eu... um recurso natural que lhe fora esvaziado. A alienação é um sistema mesmo muito cruel. Descola o ser de sua sombra, cria gente meio sem rosto... constrói um inferno trancado por dentro.
No entanto, mal havia percebido a alienação que se auto imputara, estava a iniciar o processo de vencer os obstáculos, recuperar a identidade, a autoria de si mesma, quando outra armadilha se apresenta... o outro, o círculo vicioso, a dependência, as lacunas não preenchidas, a infinita e infinita ausência... as faturas da vida...

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Significar a ressignificação!


O imobilismo do desespero. 
Os pontos de vistas 
E os atos alheios. 
A vida humana possível. 
A ação que não se insere numa tradição. 
Cenário demasiado sombrio. 
Afirmações histéricas sem hesitação. 
Palavras que não significavam rigorosamente nada. 
Pessoas ávidas... 
De escândalo, sangue e agitação. 
A existência que parece preceder a essência, 
Em função de paupérrima percepção. 
O que se projeta num futuro compreende 
vulgarmente o querer que posteriormente se define... 
Somos responsáveis por nossa estrita individualidade 
Mas quando o fazemos, 
Engajamos toda a humanidade.
Em meio a grande pluralidade dos possíveis. 
Transpor a angústia à condição da ação. 
Significar a ressignificação!

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Fosse como fosse



Todas as relações eram encontros energéticos cujas partes apresentavam compatibilidades de seus encaixes, para o bem e para mal. No aparato das compreensões humanas, as maneiras de arbitrar revelavam as marcas definitivas impressas nas almas de cada um. As possibilidades de transformações, ainda que remotas, existiriam somente condicionadas ao reconhecimento de si em meio a tudo o mais existente. Os olhares eram atrapalhados pelo primário senso de inautenticidade e adulteração infiltrados pelas culpas envoltas das contradições dos compromissos tácitos e expressos. Auditar e editar o próprio pensamento, remendar e recompor os olhares... desafio da tríade pensar-falar-agir. As verdades eram precárias, as mentiras revelam uma dimensão até mais honesta da alma e fazia-se necessário escapar da força gravitacional das certezas. Ser o que não se é, transformar o outro no objeto das expectativas... a pretensão refletida no ensimesmamento que afastava o pensamento da dimensão da unidade e a doença revelava o saber que a racionalidade não queria aceitar. Onde estaria o que é autêntico? Permitir-se entrever e intuir... montagens abstratas e sinapses reverberavam para dentro o que se experimenta no mundo... e entregava ao mundo o que se constituía lá dentro. Isto porque o amor é... e fosse como fosse, mesmo no menor espaço, no menor tempo... inundava a vida com os seus requintes sutis de empatia, transformando os diálogos mais apequenados em experiências transcendentais e risadas genuínas.